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22 de Julho de 2018
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    Elza Soares e a teorização “na carne” sobre a violência cometida contra as mulheres

    Justificando
    Publicado por Justificando
    há 12 dias

    Aos 87 anos, Elza Soares lança seu 33ª álbum intitulado “Deus é mulher”. O álbum traz uma diversidade de discussões que vão desde à intolerância religiosa à violência de gênero, provando mais uma vez a força poética ímpar desta mulher, resultado de uma história de luta como mulher negra, sambista e dona de si, em uma sociedade extremamente sexista e racista. O álbum é extremamente potente para nos fazer perceber como podemos ampliar o nosso olhar para temas como as violências cometidas contra as mulheres.

    Em geral, o debate acerca das violências tem sido pautado somente pela realidade de algumas mulheres, principalmente brancas e de áreas urbanas, precisando alcançar outras realidades, como as das mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, trabalhadoras rurais[1]. Para Gayatri Spivak[2], há uma necessidade de se possibilitar a oferta de espaços e posições, aos que não são beneficiados pelas culturas hegemônicas, onde eles possam falar, e além, possam ser ouvidos.

    Elza Soares, nos dizeres de Cherríe Moraga[3], “teoriza na pele” as diversas violências que as mulheres, em especial as negras, sofrem em nossa sociedade. A cantora denuncia, por meio de músicas como: “O Que Se Cala”, “Dentro de Cada Um”, “Deus Há de Ser” e “Deus é mulher”, as injustiças causadas por um país ainda imerso em sua herança colonial, racista e misógina e, ao mesmo tempo, aponta uma postura de quem vai assumir seu próprio texto como na música “Dentro de cada um”:

    Cada música é realmente atordoante. Fica muito evidente, quando escutamos as faixas,a força na voz de uma mulher que se assume como protagonista e enfrenta uma sociedade que prefere nos ver como vítimas tal para facilitar o controle sobre nossos corpos e nossos destinos.

    Para Maria Lugones[6]deve-se tentar estabelecer um diálogo entre os estudos acadêmicos e o saber fruto dessas experiências vividas na pele. Isso se dará por meio de um projeto decolonial que busca desaprender para reaprender questionando desta forma os conceitos hegemônicos para descolonizá-los. “Deus é mulher” é uma aula de representatividade e feminismo decolonial. Nos dizeres da autora, na música “O que se cala”, o debate sobre lugar de fala fica muito pontuado:

    Como os estudos da criminologia cultural apontam, precisamos mergulhar mais nesta complexa experiência contemporânea de forma a sofisticar nossos instrumentos de interpretação[7]. A produção musical das mulheres negras no país tem muito a nos ensinar sobre as violências vividas pelas mulheres e as diferentes dinâmicas de enfrentamento. Temos muito a aprender como novo álbum de Elza Soares. Deus há de ser mulher, há de ser a mulher do fim do mundo, Deus há de ser Elza.

    Elizabeth Tavares Viana é Bacharel em direito pela Universidade Federal do Pará.

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