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16 de Outubro de 2018
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    O caso Roberto Caldas e o que ele revela

    Justificando
    Publicado por Justificando
    há 5 meses

    Roberto Caldas é um brasileiro, de 56 anos, que foi indicado e nomeado como juiz representando o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, e que atuava como advogado no então escritório Roberto Caldas, Mauro & Menezes & Advogados. A carreira do jurista se especializou em direito do trabalho e direitos sociais.

    Nos últimos dias, Roberto tem ocupado a mídia por motivos, aparentemente, alheios à sua vida profissional: violência doméstica contra a sua ex-esposa. Em relatos feitos às autoridades policias de Brasília, a vítima revelou que sofria violência doméstica desde 2007, três anos após o início do relacionamento.

    Como é muito comum em relacionamentos marcados pela violência de gênero, Roberto começou sua história com a ex-esposa com inúmeros atos entendidos como românticos, como envio de flores, presentes e presença constante. Segundo ela, “ele fazia declarações, lia poesias, ligava 30 vezes por dia” e em pouco meses a convidou para morar em Boston, nos Estados Unidos.

    Importante aqui já evidenciarmos que tais atos, embora insistentemente apresentados às mulheres, especialmente pela mídia – em filmes, novelas e livros como gestos de amor são, na verdade, exercícios de poder.

    Um homem que diz que está disposto a tudo para estar com a mulher que ele alega amar não está fazendo uma declaração de amor, mas sim uma ameaça à liberdade daquela mulher, pois sua disposição vai realmente até às últimas consequências e para ter o que deseja esse homem não hesita, em momento algum, em desrespeitar constantemente os desejos da mulher. E isso, leitoras e leitores, não é amor, é controle.

    Logo, a ex-mulher de Roberto tinha todos os motivos para acreditar que sim, ele a amava e que seria, portanto, uma ideia coerente mudar de país com ele.

    Roberto conseguiu afastá-la de sua família ao levá-la para os Estados Unidos. Aqui, abrimos uma outra reflexão: um homem que tem condições financeiras de viver fora do país, mantendo suas atividades de trabalho em diversos lugares, é um homem que está em uma posição de poder profissional. E ninguém tem dúvidas que Roberto estava, até pouquíssimos dias, nas mais elevadas camadas hierárquicas do Direito.

    Faço, então, uma retomada de um dos argumentos do início do texto, quando afirmo que a conduta violenta de Roberto em sua vida íntima é aparentemente alheia à sua vida profissional. Na verdade, tais condutas estão diretamente conectadas. Roberto estava blindado pelas poderosas posições que ocupava e, mais do que isso, incentivado. Quanto mais alto o escalão, mais o autor de violência se encontra assegurado a desconsiderar a subjetividade e humanidade alheia. Por isso, são muito comuns os casos de assédio sexual cometidos por homens com poder e recheadas contas bancárias.

    Existe ainda, nos universos desses homens, um enorme conforto em praticar violência, pois vigora a certeza do silenciamento de suas vítimas, as quais, na crença dos agressores, nunca teriam coragem de denunciá-los. “Quem vai acreditar em você?”, ouvimos todos os dias.

    E é também para interromper esse ciclo de abuso e violência cometidos por homens que reivindicamos a presença de mulheres feministas em cargos de liderança. A violência é uma das principais características da masculinidade, entendida aqui como performance do gênero masculino:

    Na guerra e pelo militarismo, os homens podem sofrer, às vezes até por generocídio, mas o poder coletivo estrutural dos homens tende a se manter incólume, por vezes, reforçado. Em meio a isso, mulheres e crianças são propensas a sofrer enormemente independentemente da parte que tenham em tal violência e mortandade. Se isso significa mais mulheres ou mais homens sendo mortos, não muda o fato de que são quase sempre os homens que fazem a matança. (Jeff Hearn, no livro Making Gender, Making War)

    A Roberto, no entanto, foi negada a impunidade, pelo menos a impunidade social. Desde que começaram a eclodir as notícias e as provas de suas violências, que também foram contra as trabalhadoras domésticas de sua casa e seus filhos, Roberto está assistindo à queda de sua carreira.

    Diante dos áudios de suas agressões físicas e verbais gravados pela ex-esposa, nos quais podemos ouvi-lo chamando a mulher de “vagabunda”, “cachorra”, “gordona escrota”, “safada”, “víbora”, não havia mais a possibilidade de questionar, como já estava sendo feito pela defesa de Roberto, a veracidade do depoimento da vítima.

    Essa mulher precisou se munir de seis anos de gravação para garantir que não seria duvidada e, mesmo assim, essa foi a primeira estratégia dos então advogados de Roberto.

    Em 14 de maio de 2018, Roberto foi afastado de todas as atividades do escritório do qual era sócio e a banca ainda retirou seu nome da marca, passando a se chamar Mauro Menezes & Advogados, além de ter renunciado ao cargo na Corte Interamericana de Direitos Humanos.

    Essas atitudes seriam impensadas poucos meses atrás, afinal bastaria colocar publicamente em dúvida a sanidade da vítima que, muito provavelmente, ele seguiria a sua vida profissional sem qualquer sobressalto. Mas as mulheres não se calam mais; não aceitamos mais que sejamos tratadas como histéricas cujo objetivo de vida é destruir a vida de um homem que, veja bem, é um excelente profissional e homem de família, se acalme. Não somos emocionais e irracionais como sempre nos fizeram acreditar. A violência a que somos ainda subjugadas é baseada em uma série de mitos sobre nós mesmas e o principal mito é o de que não somos humanas, mas objetos.

    Não acreditamos mais nisso! Fortalecemo-nos, nos falamos e subvertemos todos os dias as ideias que têm sobre nós para que possamos realizar todas as nossas potencialidades com autonomia, afeto e solidariedade. Ao contrário do que Roberto acredita, mulheres são pessoas e nossos direitos são direitos humanos. Seguiremos no combate e nas denúncias de homens que nos desumanizam e cobraremos de seus empregadores e parceiros profissionais que interrompam as principais fontes de sua violência: o poder e o dinheiro.

    Isabela Guimarães Del Monde é Cofundadora da Rede Feminista de Juristas e sócia do Tini e Guimarães Advogados.

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