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26 de Abril de 2018
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    Por um lulismo virado à esquerda

    Justificando
    Publicado por Justificando
    há 12 dias

    A prisão de Lula representou o epílogo do projeto lulista. Não pela destruição do ex-presidente – ele mostrou, no ato de São Bernardo do Campo, que continua em forma e sua importância política certamente resiste ao encarceramento. O que não tem futuro é o projeto de acomodação de interesses que permitiu que políticas de combate à miséria e de abertura de possibilidades de mobilidade social aos mais pobres se combinassem com a manutenção quase intocada das vantagens dos grupos dominantes. Seu esgotamento foi demonstrado pelo golpe de 2016 e pela acelerada política de destruição de direitos implementada pelo governo Temer. Ao longo de todo o processo, Lula não se cansou de acenar com a possibilidade de uma recomposição do pacto, mas, como resposta, recebeu a continuidade da perseguição contra ele e, agora, a prisão. O recado é ainda mais claro quando se põem na conta todas as ilegalidades cometidas para chegar a esse resultado.

    Parte da militância do PT julga que a solidariedade ao ex-presidente, que é de fato um preso político, veda qualquer debate sobre o futuro da esquerda. Penso que, ao contrário, este debate se torna cada vez mais urgente – sem que a denúncia do arbítrio e a luta por sua libertação fiquem em segundo plano. Trata-se de buscar os melhores caminhos para enfrentar uma situação em que andam juntos o retrocesso social, o cerceamento das liberdades e a criminalização da própria esquerda.

    A discussão passa, necessariamente, por um balanço da experiência petista no poder. É fácil descartá-la sob o rótulo da “conciliação”, como fazem muitos, do PSTU a Eliane Brum. Em seu livro A verdade vencerá, Lula responde aos críticos:

    Muitas vezes, companheiros do próprio PT, companheiros ideologicamente mais refinados, achavam que [meu governo] era um governo de conciliação. Eu sempre entendi que um governo de conciliação é quando você pode fazer mais e não quer fazer. Agora, quando você pode fazer menos e acaba fazendo mais, é quase que o começo de uma revolução – e foi o que fizemos neste país”.

    É uma defesa retórica, com exagero, mas que toca em um ponto nevrálgico. A crítica feita aos governos do PT deixa subentendido que a alternativa à conciliação seria uma estratégia vitoriosa de enfrentamento. No entanto, o mais provável é que levasse à derrota. O projeto de Lula no poder, que André Singer descreveu como um “reformismo fraco”, nasceu de uma percepção muito desencantada da correlação de forças no Brasil, do entendimento de que o caminho para a implantação um programa menos diluído, que atacasse com maior firmeza nossos problemas estruturais, estava de antemão fechado.

    Os limites do pacto lulista são claros. Muitos dos principais gargalos para a construção de uma sociedade mais justa e mais democrática foram deixados quase intocados – o rentismo, a monopólio da informação, o latifúndio. A proposta petista original de uma política mais horizontalizada e participativa foi muito encolhida, para não prejudicar os acertos com a elite política tradicional. O modelo de desenvolvimento predatório, despreocupado com o impacto ambiental, não foi questionado. A inclusão social foi feita prioritariamente por meio do acesso ao consumo, o que tanto garantia a reapropriação privada do fundo público quanto dificultava a luta pela construção de uma lógica social diferente. O medo dos grupos fundamentalistas inibiu muitas iniciativas de proteção dos direitos das mulheres e da comunidade LGBT. A aposta exclusiva na política institucional produziu desmobilização e, quando tudo desandou, dificuldade para organizar a resistência.

    Por outro lado, também não dá para recusar os avanços do ciclo petista. É impossível não se comover com os depoimentos das pessoas que ganharam um futuro com as políticas de transferência de renda. Com aqueles que só agora tiveram acesso a algumas das comodidades da vida moderna, com o Luz para Todos. Com os estudantes que chegaram à universidade, por vezes prosseguindo em mestrados e doutorados, vindos de famílias pobres, de pais analfabetos, graças às politicas de expansão da oferta e democratização do ingresso. Com a efervescência cultural das periferias, que não brota dos governos de Lula e Dilma, mas ganha maior alcance e visibilidade com os projetos de apoio à descentralização da produção.

    Neste processo, há dois elementos principais do lulismo que a esquerda brasileira precisa reter – e reler em uma chave mais à esquerda.

    – O primeiro é a capacidade de comunicação com as massas populares. Lula tem, é claro, uma trajetória invulgar, mesmo para lideranças da esquerda, que favorece a comunicação com o povo. Tem também uma extraordinária competência oratória, uma sensibilidade inata para compreender as audiências e um grande talento para gerar empatia, qualidades não estão dando sopa por aí. Mas sua capacidade de comunicação nasce também de uma recusa consciente a fazer política para seitas. Lula se comunica com a massa porque quer fazer política com a massa, quer ampliar o alcance do discurso, quer romper o círculo da própria esquerda. Sem essa virtude, ele seria talvez um nome com importância na história do sindicalismo brasileiro, mas não o fenômeno político que é. A esquerda brasileira precisa aprender essa lição e parar de se preocupar apenas em falar para si mesma.

    – O outro elemento valioso do lulismo é o sentido de urgência no enfrentamento das necessidades dos mais pobres. Ele também nasce da vinculação direta com as classes populares, cujas carências não permitem esperar os nossos sonhos. Reconecta a esquerda com o melhor entendimento da política como prática baseada na verdade efetiva das coisas e instrumento para transformação do mundo. E permite a obtenção de uma base social alargada.

    Há, no entanto, armadilhas no interior destas virtudes – e ler o lulismo “à esquerda” é exatamente tentar escapar das armadilhas. A busca por uma comunicação ampliada imediata pode levar a evitar enfrentamentos com o senso comum e com a ideologia dominante – e assim dificultar avanços além de certo limite. Julgo que, nos melhores momentos de sua carreira política, Lula soube evitar esse erro. Sem cair nos chavões da esquerda, conseguiu fazer do diálogo com a massa um momento de educação política real. Mas não quando, já no processo de construção da saída lulista, reduziu seu programa ao ideal liberal da “igualdade de oportunidades” e passou a minimizar o conflito social adotando a persona “paz e amor”.

    Já o realismo ou pragmatismo que resulta da consciência da urgência das necessidades dos mais pobres corre o risco de resvalar no possibilismo – isto é, no esquecimento de que a vontade de mudar o mundo também é parte da realidade do mundo, na aceitação dos limites à transformação do mundo como inamovíveis, na secundarização da parte da luta política que consiste em alterar as condições da própria luta. Com isso, o enfrentamento das necessidades mais urgentes acaba por se tornar o horizonte final do projeto político e a transformação social radical é deixada de lado.

    Penso, ao contrário, que é necessário manter sempre em mente uma lição de Gramsci – estou me referindo ao trecho dos Cadernos do cárcere, em que ele assinala o caráter criador do “político em ação”, que “é um criador, um suscitador; mas não cria do nada, nem se move no vazio túrbido dos seus desejos e sonhos. Baseia-se na realidade fatual”. De maneira sintética, Gramsci está indicando a necessidade de ultrapassar tanto o possibilismo, que vê os limites postos à ação política como imutáveis, quanto o voluntarismo, que julga que eles podem ser desprezados por mera decisão subjetiva. O realismo de Gramsci, herdeiro de Maquiavel e de Marx, inclui em seu relato tanto as energias transformadoras latentes no mundo social quanto a vontade atuante de mobilizá-las. Um “lulismo à esquerda” deve conjugar essa compreensão com o entendimento de que é preciso provocar mudanças aqui e agora.

    Preservar as virtudes do lulismo escapando de suas armadilhas não é um projeto fácil, mas é necessário para produzir uma prática política que seja radical sem ser onírica e que incida na realidade sem deixar de recusá-la.

    Luis Felipe Miguel é doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).

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